Segredos Familiares e as Dores Emocionais

Quando falamos de qualquer tipo de segredo, estamos tratando de um tabu ainda presente no meio social onde segredo é uma mentira sofisticada.

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Cíntia Gemmo Vilani

Quando falamos de qualquer tipo de segredo, estamos tratando de um tabu ainda presente no meio social onde segredo é uma mentira sofisticada. Entretanto, ter ou manter um segredo pode ser visto como uma condição de proteção de laços familiares e emocionais.

Diversos autores que trabalham no contexto de segredos familiares apontam que o segredo pode ser: específico de um membro da família, compartilhado com alguns membros apenas, compartilhado por uma única família dentro de uma geração ou, até mesmo, compartilhado com uma pessoa de fora desse núcleo pelo peso da revelação que o segredo viria a ter. Um exemplo do que pode ser descrito como segredo é o que pode ser visto no primeiro episódio da série The Crown. O Rei George VI, ao saber de sua debilitada condição de saúde ao descobrir um câncer de pulmão, questionou um de seus médicos sobre quem estava sabendo desse quadro. Ele foi informado que nenhum de seus familiares sabia. Ele resolveu então guardar este segredo, antecipando que sua filha - a princesa Elizabeth – o substituísse em uma viagem internacional, sem contar suas devidas intenções.

Ao assistir a série ou ao ouvir relatos de segredos desse tipo, pode-se pensar, em um primeiro momento, que se trata de uma atitude egoísta e uma mentira que não precisava ser dita.

Porém é importante analisar que existem dois papéis que o segredo familiar tem:

  1. Faz parte de um mecanismo de vínculo grupal de uma família, como por exemplo, a questão de um membro familiar adotado. Muitas famílias optam por manter tal segredo temendo o julgamento não só das pessoas de fora, mas, precisamente dos próprios familiares.
  2. Faz parte de um mecanismo individual que possui a função de autonomia do sujeito, como por exemplo, sua opção de escolha sexual, gravidez indesejada e uma traição.

A dor e o sofrimento emocional para algumas pessoas ao se deparar com situações nas quais espera que o julgamento familiar fosse feito de forma impiedosa faz com que os indivíduos guardem suas decisões. O nome para tal atitude é segredo.

Gosto muito da definição de Arnaud Lévy, que explica a origem latina da palavra segredo, oriunda do verbo crivar, da raiz cerno. Passar pelo crivo significa distinguir algo que seja relevante, ou seja, peneirar o que de fato é importante. Ter um segredo não é mentir e nem agir de má fé. É usar de inteligência emocional e verificar o que de fato é importante ser anunciado publicamente ou exposto para um pequeno grupo.

O grande problema do segredo não é de conotação religiosa ou moral; pecado ou mentira. A questão de possuir um segredo é como ele é encarado pelo próprio sujeito que o guarda.

Algumas pessoas sofrem de problemas emocionais relacionadas à culpa, remorso e arrependimento por acharem que erraram ao guardar um segredo e buscam alívio em um processo terapêutico ou ajuda religiosa.

Mas, construir a consciência de que ter um segredo nada mais é do que um discernimento crítico sobre o quanto da intimidade pessoal e emocional é comunicada ao mundo externo, ajuda a lidar com esses sentimentos negativos.